sábado, 25 de outubro de 2014

ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade )
Fonte: A Magia da Poesia

4 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Uma folha ou um poema da realidade dos nossos dias,lutas, desejos e desilusões
Durmmond de Andrade nos seus pensamentos filosóficos

Cidália Ferreira disse...

Muito bem..
Passo para de desejar um ótimo Domingo
Beijinhos

Duarte disse...

Entramos numa fase de tudo está bem e nada importa, a do conformismo. Mau, mesmo muito mau, mas o ser esgota-se.
Abraços de vida

Olinda Melo disse...


Grande Drummond e a sua Máquina do Mundo.

Boa semana, cara Irene.

Bj

Olinda