domingo, 5 de abril de 2015

Fonte: Expresso online

Maria Helena, há uma semana,
 com as fotografias oferecidas por Pierre Gonnord, num acampamento
 entretanto abandonado
Maria Helena nunca ouviu Frank Sinatra e não conhece a letra de 'New York, New York'. Mas é o seu rosto, os seus seios e os seus filhos que estarão expostos até 25 de abril na galeria de arte Hasted Kraeutler, em Nova Iorque. A beleza de Maria Helena Silva Cabeças já foi notícia em Portugal e em Inglaterra, é partilhada nas redes sociais, mas, vista de perto, aos 37 anos, com a pele queimada pelo sol, esta mulher cigana revela preocupações bem mais urgentes: todos os dias sabe onde acorda, mas nunca onde irá dormir.
Tudo parecia destinado para que Maria Helena fosse mais um rosto sem nome entre os cerca de quatro mil ciganos nómadas que se julga circularem por Portugal. Mas há um ano, na estrada entre Estremoz e Évora, tropeçou no fotógrafo francês Pierre Gonnord. Ia com a família na carroça e, desde então, Pedro, como o chama, tornou-se um amigo. Fotografou-a e aos filhos. Aos homens idosos da família, à viúva Maximiliana, aos cavalos e às ovelhas. Fixadas as imagens, começaram uma viagem que não os fez escapar da circunstância de deslocados.
A exposição em Nova Iorque recebeu o título "O sonho vai além do tempo" e a força das imagens parecia bastar. Mas um comentário num blogue acendeu a curiosidade sobre quem eram as pessoas fotografadas por Pierre Gonnord. Nos textos de divulgação nada os identificava, até que a atriz Alexandra Espiridião - que conhece os Silva Cabeças dos acampamentos ao lado de sua casa e aceitou dar a sua morada para receber a correspondência da família - denunciou o quotidiano cigano no blogue "Colectivo Libertário Évora".
Maria Helena não tem uma casa com paredes ou ficha elétrica. Mas tem telemóvel. Atende com um sorriso na voz e, do outro lado da linha, o vento e as crianças fazem-se ouvir. Sugere um encontro no estacionamento de um supermercado, nos arredores de Évora e à hora marcada já está à espera. Com ela, quase tudo o que a define: a carroça, a mula, um homem a quem se refere como irmão e três dos seis filhos. Fala com dificuldade, falta-lhe o domínio do português, sobra-lhe timidez e uma gaguez recorrente. Nasceu "cigana de pai e mãe" e reconhece que assim há de ficar, embora assuma estar "farta de não ter uma casinha para proteger as crianças do frio e da chuva". Sonha com um inverno em que consiga proteger-se, fechar a porta, varrer o chão.
Os gémeos Luís e Joni têm três anos, são os mais pequenos, mas já não são os bebés fotografados por Gonnord. Joni é um rapazito ativo, de cabelo curto e franja à tigela. Luís é loiro, cabelo comprido aos caracóis. Ainda usam fralda e só sossegam quando a mãe lhes cola as mamas às bocas. Sempre a cirandar, Rogério, ou Rogiero, como soa o nome quando dito por Maria Helena.
A rua é ruidosa e não há um café capaz de acolher o grupo. Casa, a família não tem. Sobra o carro dos visitantes. Mal o automóvel começa a mover-se, Luís desata num choro assustado. Para quem está habituado ao ritmo da mula, a velocidade do carro parece diabólica. Maria Helena conta que o marido "está fora" e que na maior parte do tempo as crianças ficam com ela e o tio, José Agostinho, a quem chamam pai, e que além destes três há mais três filhos: Manuel, 16 anos, Maria Helena, 13, Vanessa, 8. As raparigas estão na escola, Manuel não aguentou lá ficar, "tem problemas na fala", justifica a mãe.
O telemóvel toca para avisar que a polícia mandou desmantelar o acampamento. Está na hora de levantar arraiais e partir. Há quem more em condomínios, Maria Helena ocupa um terreno, cercado por árvores que lhe servem de armário, pelos cavalos e pela família alargada. Em poucos minutos, tudo é colocado na carroça, os oleados que lhes servem de casa, a bilha de gás, o garrafão de água, os cobertores. Sente-se a tensão, há pouca conversa e muita movimentação, não vá a GNR chegar.
No meio da mudança, há tempo para voltar ao motivo do encontro e, de dentro de uma mala, Maria Helena desencanta dois envelopes, formato A3, com as fotografias oferecidas por Pierre Gonnnord. Não são as imagens da exposição de Nova Iorque, nem os retratos publicados pelo "Daily Mail", em que a família Silva Cabeças é identificada como "ciganos espanhóis". São as fotografias de Rogério com um chupa, no dia em que o fotógrafo os levou ao circo, ou com o "canito" no colo. Cão que, entretanto, já morreu atropelado por um camião. Apesar da diferença de luzes, enquadramento e cenário, o círculo parece fechar-se.
Sonhos e multasA pressa acotovela o resto do acampamento, quase 30 pessoas, a maior parte crianças, todos preocupados em embalar os pertences. Manuel, o filho mais velho, destaca-se pelos traços indianos, é o único que não se deixa fotografar e ocupa-se dos cavalos. Há 17 animais no acampamento. Maria Helena e o irmão só têm a mula castanha. Mariana, uma menina de sete anos, deambula, indiferente à preocupação dos adultos. Na mão, um instrumento estranho, com arames presos em ziguezague, que soa desafinado. "O que é isso?" "O meu caixote", responde a pequena de olhos e cabelo claros.
Maria Helena traz um papel da Câmara Municipal de Elvas, uma "carta de admoestação", com o aviso de que, se insistir em acampar sem autorização, terá de pagar 200 euros. Ela não sabe ler nem escrever e fica à mercê da interpretação de quem lhe traduz os riscos na folha. Acredita sempre em quem diz que pode ir presa e também em quem lhe explica que aquilo é apenas um aviso.
Enquanto procuram novo local para montar a tenda, os Silva Cabeças contam "o sonho de ter uma casinha para viver com os gaiatos", dizem que a vida é complicada porque lhes fecharam os poços de onde davam de beber aos animais, que a polícia não os deixa permanecer no mesmo acampamento por mais de 72 horas e que ninguém lhes dá trabalho. Maria Helena não consegue explicar do que vive, fala de "um subsídio" e de ter perdido "o abono do Rogério". Confessa que às vezes anda a pedir dinheiro, água ou um carregamento para o telemóvel. Admite que gosta de "andar de um lado para o outro, de terra em terra", mas não esconde as dificuldades, como quando um filho cai doente e o médico a empurra de volta a Évora, porque é ali que está o médico de família. Ou seja, é como se dissessem que não podem ficar nem podem partir.
Pelo caminho, regressa a Pierre Gonnord, que já lhes pagou uma multa, e a quem, quando se vê com problemas, telefona, de olho nos números escritos no envelope com as fotografias. Não parece importar-se por a sua família estar a ser exibida em Nova Iorque, nem por dizerem que é bonita. E, encontrado o terreno onde vão passar a noite, as mulheres apressam-se a descascar batatas, acender o lume. É hora de dar de comer às crianças. Mais tarde, José Agostinho irá buscar as meninas à escola. Como a mãe, já aprenderam que sabem sempre onde acordam, nunca onde irão dormir.


Fonte
: http://expresso.sapo.pt/o-sonho-vai-alem-do-tempo-de-uma-carroca-em-portugal-para-uma-galeria-em-nova-iorque=f917841#ixzz3WQ6SlWx0

4 comentários:

Cidália Ferreira disse...

Muito bem, bela postagem.

Que esta Páscoa seja de renovação e Paz!
Feliz Páscoa
Beijos doces.

http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

Ricardo- águialivre disse...

Boa tarde. Independentemente da publicação que está fantástica, o blogue http://pensamentosedevaneiosdoaguialivre.blogspot.pt/, deseja a todos os amigas e amigas, suas famílias, visitantes, comentadoras/es, e outros interessados, que passem um DOMINGO de PÁSCOA muito feliz - com muito Amor, Paz, Saúde, e muitas amêndoas docinhas - se possível junto das vossas famílias.
Deixo cumprimentos.
Ricardo, Águia_Livre

Eliete disse...

Sim à Vida! Sublime, triste, real, revoltante, sei lá mais o que. bjs

Julia L. Pomposo disse...

¡Maravillosa e impresionante imagen!
Saludos desde España