quarta-feira, 15 de abril de 2015

Cartas de amor de Frida Kahlo vão hoje a leilão(Fonte: Público online)

“Sinto que te amo desde sempre, mesmo antes de ainda teres nascido.” “A única coisa que para mim é certa é que te amo.” “Não me abandones. Mantém-me dentro de ti, imploro-te.” As palavras, tão apaixonadas quanto desesperadas, são da pintora mexicana Frida Kahlo para o artista espanhol José Bartoli, quando ainda era casada com o famoso muralista Diego Rivera. A relação, que aconteceu mais por palavras tendo em conta a distância entre os dois, durou de 1946 a 1949. É a primeira vez que estas cartas vêm a público. Vão ser leiloadas dia 15 em Nova Iorque.
Frida Kahlo (1907-1954)  tinha acabado de ser operada à coluna vertebral quando a sua irmã Cristina lhe apresentou José Bartoli (1910-1995). Tinha 39 anos, estava na cama do hospital em Nova Iorque, a cidade que o espanhol escolheu para se refugiar, fugido da Guerra Civil em Espanha. Foi em 1946. Antes de regressar ao México, pouco depois do seu primeiro encontro, Bartoli pediu à pintora que lhe escrevesse. Queria saber como recuperava, ter a certeza de que Frida Kahlo estava bem.
E assim aconteceu. Na primeira carta do lote de 25 que a 15 de Abril vai a leilão na Doyle, em Nova Iorque, Frida conta como está a recuperar na sua Casa Azul. O seu desejo é o de ficar boa depressa para quando Bartoli viajar até ao México ela possa estar com ele. Semanas depois, em finais de Agosto, percebe-se que os dois já se encontraram. As pequenas formalidades que até então existiam desapareceram. Frida Kahlo está apaixonada.
“Bartoli, na noite passada senti como se muitas asas me acariciassem toda, como se as tuas impressões digitais tivessem bocas que beijavam a minha pele. Os átomos do meu corpo são os teus”, escreve a mexicana, ao mesmo tempo, que diz não querer atrapalhar a vida do espanhol, especialmente o seu trabalho. Ele devia ser livre e ela amá-lo-ia para sempre.
O romance estava só no início. À medida que o tempo passa as cartas vão crescendo, têm entre duas a 12 páginas. José Bartoli é o seu grande confidente. Frida Kahlo conta-lhe tudo. A sua relação tumultuosa com Rivera, as dores que todos os dias sentia devido aos seus problemas de saúde – a mexicana ficou com a coluna desfeita depois do acidente que sofreu em 1925 a bordo de um autocarro, tinha 18 anos –, até às suas pinturas. Dizia-lhe o que fazia todos os dias, quanto tempo havia pintado, a quem ia vender aquelas obras. Sentia-se terrivelmente sozinha, deprimida. Bartoli era a sua razão para viver.
“Por ti voltei a viver, a pintar, a ser feliz, a comer melhor”, escreve aquela que é hoje considerada uma das pintoras mais importantes do século XX. A sua dependência de Bartoli é visível a cada carta que escreve. O pedido desesperado para que este não a abandone repete-se até à exaustão. “És a razão do meu viver, tudo o que sempre sonhei e não tens ideia do quanto eu preciso de ti para não me sentir sozinha.”


Nestas cartas Frida era Mara, diminutivo de Maravillosa, assim lhe chamava o espanhol, que quando lhe escrevia dirigia às cartas a Sonja, sua amiga, ou a Cristina, a sua irmã, para que Diego Rivera não desconfiasse.
Numa das cartas, em finais de 1946, Frida Kahlo fala de como o período não lhe veio e o bom que era se ela estivesse grávida de Bartoli, embora soubesse que isso seria praticamente impossível, uma vez que nunca antes tinha conseguido ter um filho. Mesmo assim, a pintora sonha: “Se fosse realidade, nada na vida me daria mais alegria. Consegues imaginar um pequeno Bartoli ou uma pequena Mara?”
No lote, cuja estimativa máxima da leiloeira aponta para os 120 mil dólares (aproximadamente 110 mil euros), não há respostas de Bartoli, apenas rascunhos que este guardou dentro dos envelopes originais das cartas de Frida a que respondia. Ela também era o sol do seu universo, escrevia o espanhol, que com o tempo deixou de lhe escrever. Até ao dia em que Frida soube que Bartoli esteve no México sem a ter avisado. Eventualmente o tom desesperado da mexicana nas cartas afastou-o, sugere no catálogo do leilão a historiadora e autora da biografia de Frida Kahlo, Hayden Herrera.
Herrera entrevistou José Bartoli para o seu livro sobre a mexicana e na apresentação destas cartas a autora garante que o espanhol nunca perdeu o seu amor por Frida. “Se lhe perguntasses sobre ela, ele falaria com grande veneração, mas também com moderação”, afirma.
Verdade é que apesar de o amor não ter ido longe, Bartoli guardou estas cartas, juntamente com fotos, desenhos e pequenos objectos que Frida lhe enviava, até à sua morte, sem nunca ter revelado o seu conteúdo. Quando em 1995 o espanhol morreu, a correspondência ficou nas mãos da sua família.
      

4 comentários:

Cidália Ferreira disse...

Gostei do texto! :-)

Beijinhos

http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

Elvira Carvalho disse...

Muito interessante, especialmente porque desconhecia o romance.
Um abraço

Portuguesinha disse...

Todas as cartas de amor são ridículas.
Mas uma mulher tão desesperada que projecta a razão de viver num homem é ainda pior. Ele não tinha mesmo nada que levar com essa responsabilidade. Que carência e que fado!

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Irene querida, que história mais linda|!
Adoraria ler todas as cartas, não conhecia.
Adorei!
Um grande beijo no coração querida amiga.