quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Tenho a certeza que o céu é uma biblioteca
E cada nuvem é um nicho fofo organizado por autor
Ou temática (isso ainda não decidi)
Onde te envolves no prazer da leitura
...
Em redor há um parque maravilhoso
Onde brincam animais de companhia felizes
Sem tempo para zangas ou doenças
Cada dia é uma pintura estonteante
E a música presente ou não
Só obedece aos caprichos do teu ouvido
Da tua atenção
Há frutos luminosos nas árvores
E uma bruxa má aposentada dos Contos de Fadas
Coze pão e bolos, contente
Por já não ter de fazer mal a ninguém
E poder ser finalmente amada
A morte repousa as suas canseiras sobre a erva fresca
E inveja a facilidade com que os terrestres tudo esquecem
À sua passagem turva
Só ela aborrece a eternidade sob o peso da memória
Mas, entretanto, eis que um cachorro se aproxima
E lambe-lhe no rosto um sorriso enternecido
Ana Wiesenberger
08-02-2016

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Escolha de Lita Lisboa

VIVE O INSTANTE QUE PASSA
Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão, no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profund...idade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.
VERGÍLIO FERREIRA
pintura de Celito de Medeiros

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Rui Zink - fonte: Caras online

UMA ORAÇÃO
José Pedro Gomes continua em "coma induzido". Diz a lenda que, nesse estado, podemos comunicar com os amigos desaparecidos. E não é difícil imaginar as divertidas conversas de José Pedro com António Feio. "Tinha tantas saudades tuas, pá!"
"Eu também, mas a ti tenho-te visto. No teatro, na televisão..."
"Aqui também há televisão?"
"Não. Mas vemos tudo, lembra-te. É uma das poucas vantagens de se estar morto. Até Benfica TV temos à borla."
E José Pedro: "Porreiro. Acho que vou gostar disto."
E é aqui que António Feio finge arreliar-se e admoesta o amigo de sempre. "Estás parvo, ainda tens mais um par de peças para fazer, a Luísa Costa Gomes está a escrever-te uma em que interpretas não doze, mas 176 personagens e tudo numa hora, era para ser surpresa, o casino já tem a data reservada e tudo..."
"A sério?"
"A sério, pá, então eu ia mentir-te? Somos amigos há quanto tempo? Quantos Inoxes fizemos? E o Molero?"
"O Molero... Foi a primeira vez que passaste a encenador, salvo erro. E também actuavas."
"Mas deixei-te fazer o brilharete todo. As palmas eram quase todas para ti."
"Eu sei. Ficaste zangado?"
Aqui António Feio irrita-me mesmo. Ou finge:
"Ó meu artolas, mas quando é que eu me zanguei contigo? Fiquei feliz, sim. E orgulhoso. Por ti. Por nós. É por isso é que tens de voltar lá para baixo."
"Mas eu... Eu queria ficar aqui mais um bocadinho a falar cont..."
"OK, mas daqui a pouco andor, tá? Há gente a torcer por ti, não lhes vais fazer a desfeita."
"Uma peça em que eu faço 176 personagens, dizes?"
"Mais coisa menos coisa, sim."
"Numa hora?"
"Sim, sim. Agora vê lá se acordas.”
 
foto de João lima
 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

fonte: http://iphotochannel.com.br

As impressionantes paisagens corporais de Anton Belovodchenko (NSFW)



Para os apreciadores do corpo feminino, é fato que sob a luz ou momento certo verdadeiras paisagens podem se formar. A série em preto e branco de “bodyscapes” (paisagens corporais, em tradução livre) do fotógrafo Anton Belovodchenko traz o nu de uma forma diferente, poética, não apenas sensual ou vulgar.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

OUTROS TEMPLOS - Célia Laborne Tavares


 
As estepes são o meu caminho
e os dias da memória
são o sem-fim
onde se derrama a derradeira angústia.
 
Deixarei as neves persistentes
pela tepidez uniforme das fogueiras
onde o mundo se aquece docemente.
 
Formarei na Terra sem fronteira
os marcos estáveis de outros tempos
e em todos os bosques
comprarei a Paz.